Vale a pena “ser” verde?

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De forma reducionista, “ser” verde significa ter suas instalações, processos construtivos, operações, equipamentos, insumos, produtos e serviços “verdes”, ou seja, que reduzem o impacto no meio ambiente e na saúde das pessoas quando comparados com os produtos e serviços similares utilizados para a mesma finalidade de fornecedores “verdes”.

Isso significa buscar soluções para os desafios diários de adequação à legislação ambiental e de inovação e ainda garantir a competitividade (em preço, disponibilidade de volume e prazo nos contratos) e a rentabilidade dos investimentos existentes e futuros.

Trata-se de reunir, rever e ampliar conceitos e fatores diversos, como redução no uso de recursos naturais (renováveis ou não), potencial de reúso e reciclagem, produção de resíduos durante o ciclo de vida do produto, potencial de reparação/manutenção e até mesmo especificações de qualidade arquitetônica funcional e técnica (integração com a paisagem, com a fauna e a flora, segurança, salubridade, conforto térmico, acústico, visual, etc.). Inclui harmonizar e integrar o desenvolvimento humano no que concerne à relação entre fornecedores, executores, funcionários, sociedade e usuários com o meio em que nos encontramos.

Considerando preço e qualidade, é uma fuga da obsolescência através da mudança para padrões mais sustentáveis de produção e consumo.

Fonte potencial de vantagem competitiva, pode minimizar riscos e maximizar o apelo junto a todas as partes envolvidas, e seu consequente aumento de demanda por produtos e tecnologias (mais) limpas, com melhor aproveitamento dos recursos naturais (renováveis ou não).

O benefício maior é inserir um componente sustentável aos produtos e serviços, necessário para uma maior competitividade, inclusive nas exportações, além de eventualmente garantir receitas não operacionais com a venda de créditos de carbono (quando aplicável) no mercado internacional.

Porém, a sustentabilidade é um conceito indeterminado, portanto não dispomos de indicadores objetivos e quantitativos mínimos para avaliar os resultados alcançados. O foco está nos processos de governança e na utilização das melhores práticas técnica e economicamente viáveis e disponíveis.

Como então transformar esses conceitos em ações práticas?

Veja alguns passos e tendências tecnológicas para iniciar paulatinamente o “esverdeamento”:

  • Identifique continuidades, sobreposições e diferenças entre os conceitos de projeto e produção tradicional e as inovações tecnológicas;
  • Desenvolva uma auditoria geral em termos de equipamentos, insumos, procedimentos operativos, eficiência energética, frota, armazenagem, reciclagem, treinamento, etc.;
  • Intensifique os 4Rs: reduza, reúse, recicle e repare;
  • Avalie a coleta, transporte, destinação e tratamento dos resíduos e demais consumíveis durante a produção;
  • Considere a reciclagem de lixo tecnológico (lixo eletrônico ou, ainda, e-lixo): baterias, computadores, etc.;
  • Avalie sua pegada ecológica (emissão de gases de efeito estufa, pegada hídrica, impactos sociais, impactos sobre a economia dos ecossistemas e da biodiversidade);
  • Adicione equipamentos, insumos, produtos e serviços “verdes” (ecoeficientes, de alta eficiência energética, biodegradabilidade, reciclagem, etc.) desde que técnica e economicamente viáveis;
  • Considere o acesso a novas, competitivas e sustentáveis tecnologias, equipamentos, materiais construtivos (biomateriais, biopolímeros, tintas ecológicas, etc.), bens de consumo e embalagens;
  • Idem para insumos, materiais e componentes que possuam critérios de sustentabilidade incorporados ao ciclo de vida do produto;
  • Priorize madeiras certificadas de reflorestamento ou nativas de origem comprovadamente legal;
  • Divida a responsabilidade com os fornecedores em toda a cadeia de suprimento “verde”;
  • Pondere sistemicamente os riscos e oportunidades; e
  • Desenvolva produtos “verdes” e ofereça aos segmentos do mercado que os valorizam.

Os desafios ambientais nem sempre criam oportunidades de ganhar dinheiro. Nem sempre o caminho mais curto é o melhor caminho. A existência de tecnologias “verdes” disponíveis no mercado não significa necessariamente a possibilidade de aplicação e ampla utilização das mesmas: é preciso realizar estudos de viabilidade técnica e econômica para verificação da realidade e adequação ao leque de tecnologias disponível.

Ambientes e mercados em que concorrentes operam em nível abaixo do padrão de sustentabilidade mínima requerida, ou mercados contaminados pela concorrência desleal, não permanecerão para sempre.

Todos procuram aparecer como “verdes”. E, melhor que se envolver de verde (“greenwashing” – uma demão de verde, prima do “socialwashing” – a tradicional filantropia empresarial travestida de responsabilidade social), é ser verde: é mais barato ser inteligente. Um meio ambiente ecologicamente equilibrado é bom também para a redução dos custos. É, sobretudo, uma questão de bom-senso e defesa da sustentabilidade do negócio: ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito.

Ser “verde” se tornou valor esperado em vez de valor agregado. Quem não se tornar “verde” (perda de sustentabilidade) pode ficar no “vermelho” (perda de competitividade).

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Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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2 comentários em “Vale a pena “ser” verde?

  1. Infelizmente o “movimento verde”está só na teoria dos meios acadêmicos e não chegou na prática do cidadão real . No meio empresarial , só as grandes empresas “investem” nas ações ambientalistas desde de que gerem lucros e somente por este motivo:”lucro financeiro”.Em contra partida , nas pequenas e médias empresas , as ações só ficam na intenção e nas promessas nas reuniões da CIPA, ou seja, não sai do papel . Resumindo , o movimento verde no Brasil ,só é executado quando e só quando gera lucros financeiros.

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