Meio Ambiente

Sua atitude revela sua altitude

abril 13, 2011
Tempo de leitura 5 min

Sua atitude demonstra como a sua percepção de sustentabilidade está calibrada. Quanto mais alta, maior a percepção do todo. Nossas atitudes rotineiras mal permitem que vejamos a árvore que está à nossa frente, quanto mais a floresta que a rodeia (ops, cadê a floresta?). Nossa “altitude” é proporcional à nossa percepção do mundo que nos rodeia. O pensar globalmente e agir localmente parece fazer sentido.

Já foi popular num passado recente a expressão “small is beautiful” (o pequeno é bonito), que encorajava pequenas iniciativas, pequenas intervenções na área ambiental, que seriam um caminho mais produtivo, mais barato e de benefícios socioambientais mais amplos do que grande intervenções. Seria a materialização do princípio “seja você a mudança que espera ver no mundo”. Isso lembra a singela e comovente história do beija-flor que diante de um incêndio na floresta levava água no seu bico para apagá-lo, fazendo a sua parte. Parece que teve um final glorioso, mas pouco prático: morreu carbonizado em consequência de uma intermação.

São muito louváveis ações individuais, independente de sua escala, em prol do melhoramento do planeta, porém, o tempo demonstrou que ações em pequena escala e os comprometimentos pessoais precisam do complemento de megaintervenções como solução para problemas sociais, ambientais e econômicos, quase sempre difíceis e caras de ser realizadas e, não raro na prática, várias iniciativas são desperdiçadoras de recursos e concentradoras de benefícios.

Na atual crise ambiental de sustentabilidade são necessárias ações afirmativas fortes, agressivas e audaciosas, com capacidade de seduzir governos e o setor produtivo. A diversidade, o equilíbrio dinâmico, a democratização da informação, seja por meios tradicionais, como a televisão, ou por redes de computadores e máquinas virtuais, precisam ser reforçadas por tecnologias contemporâneas.

Temos alguns paradoxos interessantes, que o diga a corrida espacial. A construção de novas sondas, estações e ônibus espaciais trouxe inúmeros avanços tecnológicos de uso no nosso cotidiano: novos materiais (entre eles os revestimentos antiaderentes), aperfeiçoamento de motores, satélites meteorológicos e de comunicação, painéis solares, fornos micro-ondas, monitores cardíacos, os chips dispositivos de carga acoplada (Charge Coupled Device – CCD) para detecção de câncer de mama, recorte de sulcos finos ao longo de pistas de decolagem de concreto que reduz o risco de aquaplanagem das aeronaves, etc.

Afirmou o pensador Raymond Aron que “a Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável e a paz, impossível”. Apesar de toda tensão gerada pela corrida armamentista, nela incluída a corrida espacial, uma guerra direta nunca ocorreu, mas ocorreram muitos conflitos indiretos.

Como então conciliar os benefícios incontestes dos subprodutos da indústria da defesa na melhoria da qualidade de vida (prevenção de desastres, medicina nuclear, micro-ondas, etc.) com uma visão pacifista, vegetariana, orgânica, cuja mobilidade urbana é preferencialmente por bicicletas?

Na estratégia nacional de defesa brasileira, a defesa é objetivo mais amplo de desenvolvimento nacional.  Ela está assentada em três setores fundamentais – o cibernético, o espacial e o nuclear – transversos para as áreas da agricultura, medicina e ciência e tecnologia. Isso se dará com o incentivo à ciência e à tecnologia, para que essas pesquisas fomentem uma indústria de defesa dual-militar e civil que atenda o mercado interno e a exportação. Essa evolução certamente apresentará um valor agregado muito maior quando comparado com a produção de commodities agrícolas e minerais, principais produtos da nossa pauta de exportação.

A estratégia destaca também três setores como sendo de fundamental importância para o desenvolvimento e independência do Brasil: o espaço, a cibernética e o nuclear como uma indústria estratégica, cuja importância é mais relevante para o desenvolvimento do País do que da segurança nacional. Compreende também outros setores estratégicos da política industrial, que são a indústria de defesa, a tecnologia da informação, a nanotecnologia, a biotecnologia e o setor de saúde.

Assim como o poder se concentra em áreas que aglutinam a riqueza, avanço científico, poder tecnológico e a capacidade de inovação tecnológica, o desenvolvimento científico e tecnológico é revertido em novos produtos e em redução de custos. Permite maior capacidade de competição num mercado cada vez mais concorrido.

Outro paradoxo curioso é a eficiência energética. Para fabricar um Prius (um dos ícones dos veículos híbridos e menos poluidores) são necessários 33.117 kWh (em grande parte devido ao custo ambiental dos mais de 400 kg de níquel na bateria híbrida), energia equivalente a 34,5 anos de consumo de uma família socialmente desfavorecida no interior do Brasil, por exemplo. Isso significa que não devemos comprar aquele Prius novo e dirigir um carro usado com baixo consumo de combustível, considerando a desigualdade social e o aumento do uso de recursos naturais necessários para fabricar o novo veículo?

Quais são as pegadas hídrica (verde, azul e cinza), ecológica, carbônica e energética de seus produtos e serviços? Quanto sua empresa, indústria ou organização investe em Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento – I, P&D? Nessa mensuração, o cumprimento da legislação vigente não conta, inclusive aquelas ações – por mais meritórias que sejam – decorrentes das condicionantes de licenças ambientais, são apenas obrigações legais.  O que nós somos nos controla de forma tão absoluta, que impede os outros de ouvir o que nós dizemos ao contrário.

A fé sem obras está morta. Igualmente, a sustentabilidade sem recursos financeiros para conservação e inovação é mero exercício de retórica.

Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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