Energia, Pesquisa & Inovação

Pesquisa mostra que microrganismos podem reduzir produção de energia solar

julho 22, 2014
Tempo de leitura 3 min

Biofilmes superficiais formados por fungos e outros microrganismos, e associados a outros materiais particulados, podem reduzir em até 10% a produção de energia de painéis fotovoltaicos. A descoberta é resultado do estudo “Avaliação da influência de biofilmes (fungos e fototróficos) na eficiência energética de módulos fotovoltaicos”, realizado pela pesquisadora Márcia Aiko Shirakawa, do Departamento de Engenharia de Construção Civil, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A pesquisa avaliou se o crescimento de microrganismos, no caso fungos e organismos fototróficos (como cianobactérias e microalgas), poderiam diminuir a aquisição da energia solar em módulos fotovoltaicos expostos na cidade de São Paulo.

De acordo com Márcia, há vários estudos na literatura científica que mostram os problemas causados nos módulos fotovoltaicos por outros tipos de poluição, como poeira e fuligem. “Fatores biológicos são incluídos na composição das poeiras, mas até o momento a caracterização microbiológica desses fatores ainda não foi realizada”, explicou. “O crescimento de fungos (bolores) pode ser visto em lentes de microscópios e câmeras fotográficas sendo, portanto, um fenômeno conhecido na superfície de vidros, mas ainda não havia sido estudado em painéis solares. Nossa pesquisa preenche uma lacuna do conhecimento científico em área multidisciplinar, envolvendo a microbiologia e a redução de produtividade em sistemas fotovoltaicos instalados em telhados urbanos.”

Para realizar o estudo, Márcia e sua equipe instalaram 18 módulos fotovoltaicos, composto por 36 células, de 10 cm² cada, de silício policristalino, no Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos do Instituto de Energia e Ambiente. Depois de 18 meses exposto ao sol, foram coletadas amostras da área superficial externa de seis módulos. “Constatamos que os fungos colonizaram intensamente a superfície dos módulos”, contou. “Verificamos que até cerca de 50% da ‘poluição’ depositada sobre os painéis pode ser composta por matéria orgânica e que os fungos são preponderantes em relação aos organismos fototróficos.”

Segundo ela, esses resultados ganham ainda mais importância porque até esse estudo não se conhecia a influência dos fungos na aquisição da energia solar, principalmente nas condições climáticas tropicais do Brasil. “A maioria dos fungos encontrados possui melanina na sua parede celular, o que lhes dá uma coloração escura”, disse. “Por isso, o crescimento deles reduz a passagem da luz solar para as células fotovoltaicas e, portanto, diminuem a eficiência dos módulos. Como esses microrganismos também produzem exopolissacarídeos, que são compostos com aspecto mucoso, favorecem a adesão de outros materiais particulados atmosféricos, o que bloqueia ainda mais a passagem da luz solar.”

A pesquisadora diz que a limpeza periódica dos módulos fotovoltaicos é importante para retirar essa comunidade microbiana, assim como as partículas atmosféricas de origem abiótica. Além disso, os resultados apontam para a necessidade de investigar e investir em pesquisas com vidros que tenham a capacidade de evitar a formação desses biofilmes, pois muitas vezes os módulos fotovoltaicos estão situados em locais de difícil acesso. “Também são necessários estudos em diferentes regiões climáticas e cenários de biodiversidade microbiana para estimar a contribuição dos biofilmes compostos por fungos e organismos fototróficos para cada região do Brasil”, acrescentou.

A avaliação dos fungos sem a etapa de cultura é realizada por meio de colaboração com a Universidade Livre de Berlim.

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