Energia, Meio Ambiente

Gota d’Água na Turbina

novembro 23, 2011
Tempo de leitura 7 min

Res, non verba (Realidade, não palavras)

No século passado, era prática comum nos conteúdos televisivos o aviso: “Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas terá sido mera coincidência.” O motivo: as “ficções realistas” até podem ocorrer no contexto da realidade sem violar a normalidade do mundo e ser confundidas com eventos reais.

Depois vieram os reality shows, transmitidos ao vivo, 24 horas por dia, que trouxeram consigo a ideia de “novela da vida real”, com histórias aparentemente sem roteiro, mas com muita trama. E já temos telenovelas que transmitem, por exemplo, uma cirurgia plástica de verdade em uma das atrizes, provando que a dramaturgia não tem fronteiras.

A presença da televisão nos domicílios do Brasil é de 95,7% (são 75 milhões de aparelhos), com posse média de equipamentos de 1,37/domicílio. O aparelho só perde para o fogão, existente em 98,4% das residências. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (IBGE-PNAD) de 2009 e do PDE 2011-2020 do MME.

Em 1950, eram 1.000 receptores de TV no País; em 1960, 621.919; em 1970, 4,2 milhões; em 1980, 14,1 milhões; em 1991, 27,7 milhões; e, em 2000, 39 milhões de televisores.

Essas TVs representam consumo médio de 149 kWh/ano, aproximadamente 10% do consumo de energia das residências, e equivalem a uma usina hidrelétrica de 3.300 MW (1.276 MWh/h) ou 30% de uma usina similar à Belo Monte.

Apesar da responsabilidade em matéria ambiental ser objetiva (a reparação do dano ambiental independe de culpa), não é conhecida nenhuma iniciativa que procure ofertar junto com a compra de um novo televisor a correspondente oferta de geração de energia elétrica para mantê-lo funcionando com opções ambientalmente mais amigáveis ou de menores impactos socioambientais. Se assim fosse, ao comprar uma TV LCD de 42”, R$ 1.500,00 em média, sonho de consumo de boa parte da população brasileira, seria necessário um investimento adicional de R$ 2.953,26 (para abastecimento da TV por energia eólica) ou R$ 4.650,00 (para energia solar fotovoltaica) acrescidos os custos de manutenção.

Em 2010, as TVs bateram recorde de faturamento (R$ 18,3 bilhões no mercado publicitário) e a internet, mais R$ 1,3 bilhões (juntas arrecadaram, somente no mercado publicitário, o equivalente a 66% do total faturado, por ano, por todas as geradoras de eletricidade em operação no Brasil).

Parece que estamos assistindo à comercialização do consenso. Noam Chomsky, em seu livro “Manufacturing Consent”, afirma que a mídia de massa tem seus discursos pautados segundo interesses específicos privados e de governo, no intuito de buscar apoio mais amplo da sociedade nos vendendo ideias e modos de vida. Igualmente, Walter Lippmann prospecta a “fabricação do consenso” na forma de praticar a democracia: aqueles que se consideram capazes de tomar as melhores decisões em nome do bem comum da sociedade desenvolveram mecanismos de controle social, maneiras de direcionar a opinião pública, já que o cidadão médio não seria capaz de fazer as escolhas corretas.

Fazem uso de instrumentos comprovadamente eficazes: entre outros, a presença de atores famosos. Com isso se diferenciam no mercado do marketing político ao criar um pseudodebate público, utilizando argumentos questionáveis e meias verdades, sem oportunidade ao teste do contra-argumento.

Esse produto político (o consenso da sociedade sobre um determinado tema) promete se tornar a nova marca no setor de terceirização do embate midiático, um negócio muito bem-sucedido e potencialmente lucrativo.

Com a liberdade de expressão artística, assegurada pela Constituição Federal de 1988, parece não haver mais limites entre ficção e realidade. Assistimos, principalmente nas telenovelas, personagens reais e fictícios em tramas e enredos complexos em que no merchandising social (motivo de orgulho para as grandes emissoras locais), a arte procura imitar a vida.

Como tudo está sujeito à interpretação, nunca se pode garantir uma completa fidelidade. Ao contrário das obras de ficção (mesmo as que praticam o merchandising social), onde os cenários são virtuais ou digitais, a necessidade de construção da usina de Belo Monte é 100% real. Raramente são filmadas cenas com atores na floresta. Em Belo Monte, as partes interessadas e os diretamente impactados pelo empreendimento (os atores reais) convivem com o desafio de atender as necessidades futuras de energia elétrica sustentável e de baixas emissões de gases de efeito estufa com as medidas de mitigação, compensação e indenização apropriadas ao porte e localização.

O Brasil é um país que já faz a diferença, aliando crescimento à preservação de recursos naturais e das populações indígenas. Somos hoje, em matéria de conservação e na matriz elétrica, o que a maior parte dos países desenvolvidos gostariam de ser amanhã.

Em nossa realidade, diferente das peças de ficção, os responsáveis por quase três décadas de desenvolvimento do projeto de Belo Monte consideraram todas as possibilidades técnicas e economicamente viáveis de reduzir os impactos da obra, o que, na prática, significou a redução de 48% da energia que poderia ser gerada pelo projeto original de nome “Kararaô”. É uma solução inteligente, responsável, consciente e motivada pelo bem comum.

O setor elétrico brasileiro construiu aproximadamente 1.000 barragens, algumas com mais de 120 anos de operação (a legislação ambiental brasileira tem apenas 28 anos). O Brasil consolidou progressivamente em seus projetos as melhores práticas de gestão socioambiental de eficácia comprovadas internacionalmente.

Partindo da crença midiática de que tudo pode ser feito, o limite é nossa imaginação. O fornecimento de energia elétrica, bem indispensável à sadia qualidade de vida, exige um comprometimento cada vez maior com a inovação e a competitividade não só econômica, mas também socioambiental; exige cada vez mais tecnologia, novos modos de geração e distribuição de conhecimento, diversidade tecnológica e aumento da capacidade de observação e aprendizado sobre impactos socioambientais das novas tecnologias.

Isso sim é estar verdadeiramente empenhado em achar soluções para o desenvolvimento sustentável do Brasil.

Enquanto peças publicitárias, como as do “Movimento Gota d’Água”, não se preocupam com coisas como a viabilidade técnica e econômica das propostas, o setor elétrico brasileiro está no caminho oposto para valorar os efeitos e perdas de cunho social, cultural e psicológico que usinas hidrelétricas geram às populações sob sua influência para, a partir desse conhecimento, propor o conjunto de ações mais eficazes para minorar e/ou compensar as interferências geradas.

Como consumidores, precisamos considerar nas nossas escolhas (consumo consciente, redução, reúso e reciclagem) a demanda indireta ou oculta de recursos naturais, com destaque sobre os não renováveis. Ou seja, considerar a energia (incluindo a elétrica), a água, os recursos minerais, os transportes e os processos produtivos e seus impactos no meio ambiente para orientar as nossas decisões de consumo em todos os produtos, bens e serviços que adquirimos.

Para um mundo melhor, mais consciente e solidário, mais do que aparecer com soluções emocionalmente defensáveis, é importante ser sustentável e socioambientalmente responsável, tendo por objeto iniciativas cuja efetividade seja inquestionável. É preocupante a facilidade com que a maior parte das pessoas adere de forma acrítica, aceitando o papel menos nobre de uma democracia, ao comportamento como massa de manobra. Com o progresso da ciência, a mente humana está livre para investigar, questionar e, se necessário, invalidar aquilo que não puder ser comprovado ou que não apresente um mínimo de coerência. Realidade, não palavras.

Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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2 Comentários

  • Responder Fernando Futuro dezembro 13, 2011 at 4:20 pm

    Interessante.
    Primeiro artigo brasileiro que leio que apresenta didaticamente o custo individualizado de energia alternativa equivalente necessário para “ligar” (e manter ligado) um aparelho popular, no caso um TV de LCD. Para maior credibilidade dos valores citados, o autor poderia informar os parâmetros utilizados, tipo de tempo de funcionamento e o valor comparativo da energia proveniente de outras fontes menos “ecologicamente corretas”, porém perenes e necessárias para estabilidade do sistema.
    Outro parâmetro interessante de se levar em consideração é a quantidade de “energia” necessária para produzir um mecanismo eólico ou fotovoltaico, que novamente realimenta o sistema de consumo energético. Há algum tempo atrás, por exemplo, foi estimado que uma célula fotovoltaica teria de funcionar mais de 4 anos ininterruptos para produzir a energia elétrica equivalente gasta em sua fabricação.

  • Responder Vinicius dezembro 13, 2011 at 7:09 pm

    Parabéns pelo texto, uma sensata contribuição ao debate.

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