Energia, Meio Ambiente

“É pau, é pedra, é o fim do caminho…”

março 16, 2011
Tempo de leitura 6 min

Águas de Março, uma das melhores músicas brasileiras, é uma composição do músico, arranjador, cantor e maestro Antônio Carlos Jobim. Trinta e nove anos depois, sua composição continua atual. Numa livre interpretação, são várias as referências à presente agenda ambiental.

A letra e a música de forma lenta e gradual como uma enxurrada, metaforicamente trata do cotidiano urbano e rural, nos ciclos de nascimento, crescimento e morte, tal como as chuvas de março, que marcam o final do verão no sudeste brasileiro. Como símbolo de renovação, esse período é marcado por fortes chuvas, ventos idem, responsáveis por tempestades severas, enchentes e inundações, congestionamentos, deslizamentos em encostas, acidentes, doenças, impactos sobre o abastecimento de água, eventos combinados de transbordamento de esgotos e colapsos no fornecimento de energia. Os elementos ligados à ação humana vão crescendo ao longo da canção. Veja alguns destaques:

É pau, é pedra, é o fim do caminho (está permanentemente em jogo a questão da sustentabilidade, da segurança energética e da segurança da ordem pública: seria falta de comprometimento ou falta de recursos a justificar o déficit permanente de investimentos públicos?);

é um resto de toco (desmatamento ilegal?), é um pouco sozinho (falta de solidariedade?);

é um caco de vidro (resíduos sólidos como fonte de riscos à saúde humana?), é a vida, é o sol (energia solar avante?);

é a noite, é a morte (tragédias decorrentes de catástrofes naturais?), é um laço (estamos colhendo o que plantamos?), é o anzol (extrativismo insustentável considerando o aumento demográfico?);

… candeia (cresce o risco de apagões e racionamento elétricos em SP, por exemplo. Entre outros fatores, as dificuldades de licenciamento ambiental têm provocado atrasos nas necessárias obras de transmissão e distribuição sem solução a curto prazo. Como medida paliativa, está sendo incentivada a geração térmica complementar distribuída, o que deve carbonizar a matriz elétrica paulista, na contramão de uma economia de baixo carbono. É o próprio “meio ambiente” impactando o meio ambiente);

É madeira de vento, tombo da ribanceira (deslizamento de encostas);

é o mistério profundo (sustentabilidade, na prática, vai muito além do “greenwashing” – uma demão de verde, prima do “socialwashing” – a tradicional filantropia empresarial travestida de responsabilidade social);

é o queira ou não queira (querer não é poder: não basta boa vontade, ideologia ecológica ou visão ambiental estratégica. Precisamos de soluções técnicas e economicamente viáveis, com metas plausíveis e eficazes, com as quais as dimensões tecnológica, econômica e política possam avançar em contraposição à nefasta lógica meramente conservacionista);

… no rosto o desgosto, é um pouco sozinho (que o digam os refugiados ambientais);

É um estrepe, é um prego (as perdas econômicas e de arrecadação pela ineficiência e morosidade no licenciamento ambiental aumentam a frustração dos empreendedores públicos e privados na expansão da oferta de bens e serviço que demandam recursos naturais. Entretanto, mesmo com as evidências da relação ganha-ganha para o setor produtivo e para o Estado, o tema ainda não sensibilizou o Executivo para as providências concretas);

…é a luz da manhã, é o tijolo chegando (olha o PAC aí, gente);

… é a garrafa de cana (etanol e bioeletricidade), o estilhaço na estrada (péssimas condições de conservação na maioria das estradas – exceto nas pedagiadas – contribuem para o aumento dos acidentes);

… é o carro enguiçado, é a lama, é a lama (enchentes e inundações urbanas e aumento do intemperismo climático);

… é um resto de mato (polêmica das reservas legais do código florestal), na luz da manhã;

… é um espinho na mão, é um corte no pé (Lei de Responsabilidade Fiscal e os cortes orçamentários); e por aí vai…

Tom era amante da natureza quando esse tema ainda não despertava grandes debates. “Waters of March”, versão anglófona feita pelo próprio, na “promessa de primavera” as águas mencionadas são as águas do degelo. Estaria ele antecipando os efeitos das mudanças climáticas e o provável benefício que algumas regiões temperadas terão com o derretimento de suas geleiras?

O tema principal da canção no seu núcleo melódico, de apenas três notas, remete-nos a uma reflexão da tríplice fronteira da sustentabilidade: i) produção e consumo sustentável; ii) governança climática; e iii) a economia dos ecossistemas e da biodiversidade.

Para o crítico José Ramos Tinhorão, Águas de Março seria uma adaptação (?) de um ponto cantado de macumba (uma cantiga em louvor às entidades cultuadas, como um mantra), recolhido em 1933 por J. B. de Carvalho, que diz: “é pau, é pedra, é seixo miúdo/roda baiana por cima de tudo”.

Polêmicas à parte, o Brasil felizmente apresenta a maior liberdade religiosa do planeta – tanto nas baixas restrições impostas pelo governo, como nas que são produto da violência de pessoas ou grupos – à frente da Europa e dos Estados Unidos. O Inciso VI do Artigo 5º da Constituição Federal afirma que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Aqui convive cada um ao seu modo, com conflituosidade intrínseca, mutabilidade temporal e espacial, na defesa do meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida: ecologistas, ambientalistas radicais, românticos, aquecimentistas, céticos, ecocentristas, capitalistas verdes, conservacionistas, ecossocialistas, biocentristas e os devotos da reza brava do capim de ribanceira. Contudo, conforme afirmou Willian Shakespeare, “os homens podem, porém, interpretar coisas ao seu modo. Livres da finalidade da coisa propriamente dita.”

Como disse o apóstolo São Paulo: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações (nas catástrofes ambientais, na perpetuação das disparidades existentes, na pobreza, na fome, nas doenças, no analfabetismo, na deterioração contínua dos ecossistemas de que depende nosso bem-estar), sabendo que a tribulação produz a paciência (190 milhões de brasileiros acordam a cada manhã com necessidades reais de alimentos, energia e materiais. Aguardamos uma definição, nos últimos 511 anos, de como atender a demanda futura por recursos naturais de forma sustentável e inclusiva) e a paciência, a experiência (práticas que parecem melhorar a qualidade de vida em curto prazo podem conduzir a colapsos desastrosos em longo prazo, é uma questão de ordem tecnológica e econômica, não ideológica); e a experiência, a esperança (satisfazer as necessidades básicas, elevar o nível da vida de todos, obter ecossistemas melhor protegidos e gerenciados e construir um futuro mais próspero e seguro, onde riqueza econômica – sem ela é impossível investir em preservação ambiental – e melhoramento do planeta são faces da mesma moeda, em que a vida humana é o maior tesouro).”

De onde vem a promessa de vida no teu coração?

Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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2 Comentários

  • Responder Antonio Carlos C. Velinças março 24, 2011 at 3:44 pm

    Texto brilhante e muito oportuno.
    Já sabíamos que ele era alem de gênio musical, um amante e observador da natureza.
    Mas não, que tambem era profeta.

    OBS> O nome do autor deste texto deveria ser divulgado para que, justamente, possamos lhe render nossas homenagens. Parabens.

    abraços a todos.

  • Responder j.a.mellow março 24, 2011 at 6:36 pm

    Deixou de ser uma metáfora, agora finalmente revelada, por que as ações dos gênios não são daqui, são quase sempre revelações de verdades só mais tardes compreendidas.

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