Meio Ambiente

Don’t kill the messenger Parte I

setembro 22, 2011
Tempo de leitura 4 min

A expressão “Não mate o mensageiro” (“Don’t kill the messenger”) foi proferida por um mensageiro na peça Antígona, composta há quase 2.500 anos por um dos grandes trágicos da Grécia Antiga, Sófocles.

Matar o portador de más notícias é uma tradição antiga: descarrega-se a frustração no portador, não naquele que a originou. Jogo de reis, com destaque para o conquistador implacável Genghis Khan, que não titubeava em matar o mensageiro na hora, quando a mensagem era muito ruim ou quando ela não poderia ser espalhada, é também um jogo para líderes incapazes de suportar uma notícia negativa. Ficou a tradição, segundo a qual os arautos das más mensagens merecem a “morte”. E o que não falta no mundo corporativo são as más notícias, em especial aos executivos da área de meio ambiente.


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A área de meio ambiente no setor produtivo, em especial a de infraestrutura, tem demandas socioambientais cada vez mais complexas, caras e de menor previsibilidade. A legislação ambiental trata de direitos difusos, já que o meio ambiente pertence a todos e a ninguém em particular, apresentando meta(trans)individualidade, conflituosidade intrínseca, mutabilidade temporal e espacial. Os atos de licenciamento e outorga de recursos hídricos são precários. A atual legislação ambiental não garante nada para garantir absolutamente tudo.

Cada vez mais é transferido ao empreendedor o tratamento de questões que competem ao Poder Público, harmonizando regionalmente os conflitos entre políticas públicas e os interesses de proteção do meio ambiente. A revisão dos marcos regulatórios raramente beneficia o setor produtivo. Sem contar com a dinâmica da evolução dos mesmos: dormimos legais e acordamos ilegais, com novos encargos e passivos ambientais decorrentes da publicação de um novo decreto, resolução, instrução normativa ou portaria que sequer suspeitávamos existir. No processo de articulação institucional conseguimos, no máximo, alongar o perfil do passivo potencial regulatório e reduzir a amplitude do mesmo.

Em resumo, vai demorar mais e custar mais caro.

São raras as oportunidades de receita não operacional (de créditos de carbono, por exemplo). A redução dos custos socioambientais é um desafio diário permanente frente às situações de forte pressão por resultados imediatos de custos e prazos irrealizáveis. A competitividade predatória não deixa margem para buscar o essencial, que são os meios para produzir melhor e com rentabilidade. Acabam sacrificando a qualidade e a lucratividade dos empreendimentos.

O que é considerado sustentável hoje pode não ser amanhã, já que as ciências ambientais não são exatas. O máximo que o empreendedor pode garantir é que está fazendo uso das melhores práticas técnicas, econômicas e ambientalmente viáveis e disponíveis no momento. Ou seja, amanhã poderemos não ser o que fomos/nem o que somos sustentáveis hoje.

A princípio, o portador de más notícias desperta raiva, tristeza e desesperança, pois a essência da notícia ruim reside no que está sendo dito. Uma abordagem inadequada, pelo despreparo para lidar com a dimensão subjetiva, pode aumentar, desnecessariamente, o desgaste dos executivos de meio ambiente. Para os pares executivos, foi cooptado pela causa ambiental e, portanto, não é digno de confiança e está sob permanente suspeição. Para os ambientalistas, é um capitalista selvagem infiltrado nas fileiras do terceiro setor.

Hoje não matamos o mensageiro. Somos educados demais para isso. Mas outras abordagens tão mortais, sutis, letais e eficazes estão disponíveis, com a vantagem de não derramar sangue: maus-tratos, ridicularização, isolamento, reputações arruinadas por xingamentos, cancelamento de reuniões, colocação em quarentena com golpes baixos, campanhas de sussurro difamatórias, ataques frontais e postos em fuga antes de “ser morto corporativamente” pelas mesmas pessoas que se recusam a conhecer e estudar as questões socioambientais.

Em vez de ouvir com calma e analisar com objetividade, são comuns acusações do tipo: “Isso está acontecendo porque você é omisso, incompetente e incapaz de liderar sua equipe na solução das questões ambientais.” Por quê? Porque o mensageiro pode ser a coisa mais próxima e dispensável. Mas a realidade dos fatos não é alterada por matar o mensageiro, nessa pseudo bolha de felicidade, acreditando que tudo vai bem.

Ser o portador de más notícias muitas vezes é um aspecto pouco prazeroso – embora importante – de exercer a liderança, de fato ou de direito, por isso é importante estar preparado também para liderar nos momentos difíceis.

Leia amanhã a segunda parte desse post.

Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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