Economia, Meio Ambiente

Caos Econômico e Sustentabilidade (Parte I)

outubro 24, 2011
Tempo de leitura 4 min

Estamos rumando a uma desaceleração econômica ou uma ruptura na Europa? A China crescerá menos de 5% ao ano (uma “recessão chinesa”?). Os EUA enfrentam uma estagnação econômica? E como fica o Brasil? Só o futuro dirá. Mas uma coisa é certa, a última década de prosperidade econômica, megaespeculações e gastança sem precedentes não se repetirá tão cedo.

A destruição de riquezas começou na crise de 2008, mas a conta está chegando agora: aumento mundial do desemprego, perda de poder aquisitivo, aumento da inflação. São reflexos da “conta a ser paga” pela sociedade, governos, contribuintes e até mesmo pelos investidores (não parece, mas eles também estão perdendo quando são alvo de calotes por parte de governos e tomadores de empréstimos).

Os indignados que ocuparam e ainda ocupam as principais capitais do mundo são apenas a ponta do iceberg. O protesto mundial em 950 cidades de 82 países (?) por empregos, justiça social, contra o setor financeiro, contra a “ganância” das grandes empresas e os cortes conservadores nas economias europeias soa apenas como indignação (quase romântica mesmo) e bandeiras muito vagas, mas sem propostas concretas para reverter os efeitos dessa destruição de riqueza. De concreto apenas as vítimas de conflitos e atos de vandalismo contra lojas, agências bancárias e prédios públicos e mais prejuízos.

Aparentemente é uma retomada da luta antiglobalização, de oposição aos aspectos capitalista-liberais da globalização, dos acordos comerciais e, principalmente, do livre trânsito de capital. As sugestões de alternativas ao regime econômico capitalista, como o socialismo, o comunismo e a anarquia, reaparecem. Igualmente manifestam preocupação crescente com danos ao meio ambiente e aos direitos humanos, como subprodutos da globalização.


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Paradoxalmente, as iniciativas dos governos (inclusive de governos socialistas e comunistas) em salvar suas instituições financeiras nacionais são apenas um esforço de reduzir os efeitos da crise. Se permitirem que seus bancos quebrem, os resultados práticos sobre suas economias e o caos social serão muito maiores.

Os ecocentristas ou biocentristas mais afoitos comemoram a desaceleração da economia mundial, afinal será menor a intensidade de emissão de gases de efeito estufa (GEE), poluição, etc. Ledo engano: sem recursos financeiros, os investimentos em saneamento básico (oferta de água potável inclusa) e saneamento ambiental serão menores. O nível de pressão sobre os biomas será maior pelo aumento da exclusão social. Sem recursos financeiros e riqueza econômica é impossível investir em preservação ambiental e melhoramento do planeta.

A assimetria na distribuição dos recursos naturais está acompanhada de um incremento da intolerância dos líderes e organizações do mundo desenvolvido em face de omissões quanto à sustentabilidade do uso dos recursos naturais (renováveis ou não).

O princípio da semeadura se revela mais uma vez. Estamos colhendo o que plantamos: a irresponsabilidade fiscal e monetária das nações, as vacilações das lideranças políticas, a corrupção, o consumismo desenfreado, o ceticismo crescente dos contribuintes, o desânimo dos socialmente excluídos, a ilusão das medidas paliativas, a procrastinação (adiamento) de medidas impopulares e necessárias, a tolerância e condescendência com a má administração pública e privada, o aumento da injustiça social e da iniquidade. Tudo, é claro, potencializado por desastres naturais. Fica cada vez mais distante ser sóbrio e vigilante.

O mundo nunca deixou de ser uma arena de competição, ainda que as formas pelas quais ela se manifesta variem com o tempo. A agenda ambientalista internacional poderá ser um útil instrumento político a serviço de uma agenda de restrições ao nosso desenvolvimento socioeconômico interno soberano do País e à ampliação do controle externo sobre regiões ricas em recursos naturais.

Solidariedade e “bondades nacionais” entre nações são secundárias e residuais às suas respectivas capacidades econômica, tecnológica, militar e estratégica. Por isso mesmo, o mundo continua e continuará inseguro, porque é a própria essência da luta pela sobrevivência entre os Estados.

Hoje, há muito mais perguntas sem respostas sobre como assegurar o uso sustentável dos recursos naturais (o Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta). Essa abundante variedade de vida – que se traduz em mais de 20% do número total de espécies da Terra – eleva o Brasil ao posto de principal nação entre os 17 países megadiversos (ou de maior biodiversidade).

Um Estado contemporâneo e seguro, portanto, deve saber identificar seu destino e buscá-lo em meio a um caminho de grandes incertezas e indefinições. Temos um futuro comum?

Crédito: Decio Michellis Jr. é licenciado em eletrotécnica pela UNESP, extensão em Direito da Energia Elétrica pela UCAM, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura pela FIA/USP.

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1 comentário

  • Responder Marcio Antonio Curi outubro 28, 2011 at 11:10 am

    Parabéns, Décio! Excelente artigo. É importantíssimo chamar a atenção para os pontos fundamentais de desenvolvimento sustentável, pois não basta estabelecer somente critérios políticos! É fundamental, que se coloque a sustentabilidade como um trunfo do próprio povo! Somos nós que devemos usufruir de todo o processo de modernização e automação do uso da energia para o desenvolvimento.

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