Economia

Amigos, amigos, negócios à parte!

abril 2, 2010
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A proximidade do prazo para desincompatibilização de cargos dos postulantes à Presidência da República nas eleições de outubro próximo marca o início dos debates entre candidatos e empresários acerca dos projetos e segmentos da economia nacional a serem priorizados no futuro plano de governo. A iniciativa privada já emitiu sinais de que o foco deve concentrar-se em políticas capazes de promover o reaquecimento da produção industrial e a ampliação do crédito, bem como a retomada dos investimentos no setor de infraestrutura. Todavia, chamam especial atenção a disposição e o interesse da classe empresarial em reestruturar a política de comércio exterior brasileira, tendo empresários como gestores na futura composição do governo.

A boa notícia é que esse processo não seria prejudicado por questões como a retaliação de produtos dos Estados Unidos, autorizada pela Organização Mundial do Comércio (OMC) devido ao desrespeito de Washington à sua determinação de extinguir os subsídios ao algodão. Esta é uma disputa trivial entre duas economias, travada segundo as mais civilizadas normas e no âmbito de legítimo organismo multilateral. Ademais, o episódio abre imensa oportunidade de negociação, com boas perspectivas de redução tarifária na alfândega norte-americana para diversos itens da pauta brasileira de exportações.

De todo modo, paira no ar e no ambiente empresarial indisfarçável preocupação quanto à capacidade brasileira de manter e/ou continuar ampliando as suas exportações. Parte do ceticismo pode ser atribuída ao fato de os Estados Unidos e a União Européia, grandes compradores, ainda estarem enfrentando resquícios e efeitos colaterais da crise mundial. No entanto, as dúvidas parecem ter como principais causas alguns retrocessos na política comercial e a persistente contaminação por interesses políticos da estratégia de comércio exterior do País.

Embora a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento mantenha-se otimista com a projeção de US$ 172 bilhões em exportações para 2010, é inevitável recorrermos à avaliação do desempenho da corrente de comércio brasileira, que, em 2009, registrou queda de 25% em relação ao ano anterior, somando pouco mais de 280 bilhões de dólares. É fato que a crise internacional teve impacto negativo direto no fluxo do comércio global. Contudo, vale reconhecer que o Brasil mostrou-se extremamente vulnerável em três aspectos estruturais determinantes, que devem compor a agenda de seu comércio exterior nos próximos anos: competitividade, acesso a mercados e eficiência de gestão.

No que tange à competitividade, seu equacionamento implica a desoneração tributária, que pode ser feita a curtíssimo prazo, o resgate dos gargalos da logística e da infraestrutura e o incremento da inovação tecnológica e produtiva. Quanto à ampliação do acesso a mercados, pressupõe-se atuação mais assertiva nas negociações e acordos comerciais (tanto multi, quanto bilaterais) e a inserção de produtos e serviços com base de distribuição e comercialização em mercados estratégicos para o comércio exterior, o que resultaria na redução do espaço entre os produtos brasileiros e seus consumidores. Finalmente, é preciso haver mais sinergia na gestão da política comercial, com um direcionamento compartilhado entre o Governo Federal e a iniciativa privada.

Fazendo essas lições de casa, o Brasil poderia até mesmo superar de modo significativo a meta de exportações estabelecida para 2010. O que não falta ao País é diversidade e qualidade de produtos agroindustriais, bens de capital, semimanufaturados, manufaturados e outros itens de altíssimo valor agregado, como softwares, aviões, produtos químicos e médico-hospitalares. Ademais, a combinação da maior competitividade e organização dos segmentos de infraestrutura e logística com um conjunto de ações estruturadas dos setores público e privado também reduziria o impacto das oscilações cambiais nas vendas externas.

É legítimo o esforço do Governo Federal em criar mecanismos de estímulo às exportações brasileiras. Bom exemplo disso foi a redução da carga tributária sobre insumos utilizados em bens voltados às vendas externas, bem como o pacote de incentivos ao exportador, a ser anunciado pelo Ministério da Fazenda nas próximas semanas, incluindo a criação do Eximbank do Brasil. Certamente, esse mecanismo será importante para a alavancagem da produção industrial, além de garantir mais segurança ao exportador em relação às oscilações do mercado.

Entretanto, devemos concentrar esforços em retomar a identidade do comércio exterior brasileiro, focando em resultados, a partir de uma estratégia pautada pela conquista de novos mercados e, sobretudo, na agregação de valor à pauta de exportações. Como se observa, é inútil tergiversar. Ninguém perderá mercados em decorrência do exercício diplomático e do debate civilizado com as nações amigas. Porém, é preciso ficar claro que, quando falamos de exportações, devemos ser pragmáticos, pois estamos tratando de negócios!   

Por Juan Quirós, presidente do Grupo Advento e vice da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da ABDIB (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base).  

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