Economia, Meio Ambiente

A sustentabilidade dos negócios globalizados: ética dentro e fora de casa! Parte I

abril 20, 2011
Tempo de leitura 4 min

Consecutivamente nos deparamos com notícias que trazem os seguintes temas: conhecimento multicultural, conduta ética profissional e gestão de negócios globalizados. Manchetes como “Montadoras modificam o cotidiano do interior”, trazida pela Folha de São Paulo de 10 de março do ano corrente, evidenciam claramente como os moradores de Piracicaba, Sorocaba e Jacareí sentem o impacto da instalação de montadoras asiáticas, desde a chegada dos executivos, suas famílias e suas demanda, até a venda da pamonha! Mais de US$ 1,9 bilhão será investido por três montadoras asiáticas no interior, movimentando a economia, bem como desafiando aqueles que querem fazer parte desses negócios.

Essa demanda vem à tona quando analisamos o crescimento evidente dos negócios realizados nos BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China e, agora, a África do Sul). A atenção está voltada para a atuação multicultural de profissionais nas chamadas “zonas cinzas” da conduta ética. Muitos desses países apresentam conflitos éticos, que envolvem os direitos humanos, o trabalho escravo, espionagem, direito de igualdade, liberdade de expressão, entre outros pontos cinzentos, que podem deixar profissionais em uma “saia justa” no ambiente de negócios. Isso pode acarretar prejuízos ao próprio negócio, bem como deixar questionável a imagem da empresa a qual o profissional representa.

Vale conversar a respeito, mesmo porque, se sua empresa não tem a intenção de expandir suas plantas para diferentes cenários, muitas empresas e profissionais originários desses países podem estar presentes em sua cadeia de negócios, sendo clientes, fornecedores e/ou possíveis colaboradores futuros. Por isso, é importante perguntar:

Como as empresas que investem em países estrangeiros lidam com a zona cinza da ética?  Quais princípios podem ajudar tais empresas a transpor o labirinto de diferenças culturais e desenvolver códigos de condutas referentes à prática de negócios éticos em todo o mundo? O que fazer quando os padrões éticos do país anfitrião parecem mais baixos do que os do país de origem? Será que a empresa deve investir num país estrangeiro que viola os direitos civis e políticos? Se empresas de países desenvolvidos transferem suas instalações para países em desenvolvimento, que carecem de normas rigorosas sobre meio ambiente e medicina do trabalho, que padrões devem prevalecer?

Com a internacionalização, essas organizações entram em contato com diferentes culturas dos países de acolhimento. A relação das empresas globalizadas com os países que as acolhem assenta-se em um conjunto de valores explícitos e implícitos e impõe modos de tratar clientes, fornecedores e colaboradores; o tipo e o nível de participação na tomada de decisão, a velocidade e o processo de tomada de decisões, o nível de formalidade e controle, a expectativa de desempenho, o nível de tolerância ao risco, a orientação de custo/qualidade. Na maioria das vezes, não se percebe esforços para a compreensão e adaptação à realidade local.

A aculturação local e a hibridização de produtos/serviços não podem anular valores culturais do grupo, levando ao risco de empresas perderem suas características e especificidades reconhecidas pelos clientes. Devem-se identificar os valores básicos (core values) que podem ser mantidos e aperfeiçoados, como os inerentes à personalidade da organização, e os que devem ser moldados à realidade globalizada. Donaldson (2005) apresenta três análises a respeito das possibilidades de diretrizes para a conduta dos funcionários de empresas que atuam globalmente:

a) Relativismo Cultural: tem como argumento que a ética de nenhuma cultura é melhor do que a de qualquer outra. A inadequação do relativismo, contudo, torna-se notória quando as práticas em questão são mais danosas do que pequenas propinas e negociações privilegiadas. Pode-se estar moralmente cego aceitando-se tais condutas.

b) Imperialismo Ético: tem como argumento que as pessoas devem fazer em todos os lugares exatamente o que fazem em casa. Trata-se de uma abordagem cativante, mas que é, sem dúvida, inadequada.

c) Absolutismo: trata-se de uma teoria subjacente ao imperialismo ético. Baseia-se em três princípios problemáticos: os absolutistas acreditam na existência de uma única lista de conceitos, impondo exatamente os mesmos comportamentos em todo o mundo; têm a presunção de que as pessoas devem expressar a verdade moral usando apenas um conjunto de conceitos, ignorando a diversidade das tradições culturais e o respeito a elas; exigem que a verdade esteja em um só lugar – um estaria certo e o outro estaria errado.

As empresas que adotam a abordagem absolutista talvez venham a cometer erros desastrosos.

As empresas devem auxiliar seus gerentes a distinguir entre práticas meramente diferentes e práticas equivocadas. Para os relativistas, nada é errado. Para os absolutistas, muitas coisas apenas diferentes são erradas. E nenhum desses extremos orienta o mundo real dos negócios.

Acesse aqui a segunda parte desse post.

Crédito: artigo escrito por Ana Paula Arbache, sócia diretora da Arbache Consultoria e responsável pelas ações de gestão de pessoas, cidadania corporativa, sustentabilidade ética, social e ambiental.

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