2015 é de ajuste, fundamental para retomar a trajetória de crescimento nos próximos anos

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E não há como a economia nacional apresentar resultados positivos sem a recuperação e o fortalecimento da indústria. O Brasil tem pressa e a indústria precisa estar à frente

Nada melhor que começar um ano com boas propostas, incluindo a retomada da confiança. No Brasil, a esperança por uma nação melhor com uma indústria forte se renova a cada troca de equipe ministerial. E este é o momento atual.

A reforma nos ministérios tem o objetivo de dialogar com e acalmar os mercados. A opinião de Danilo Sartorello Spinola, pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia – NEIT da Unicamp e consultor da Divisão de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, é também a de muitos especialistas consultados por NEI para esta reportagem. Na visão do economista Ricardo Amorim, se a “casa” for arrumada em 2015, recuperando a confiança de empresários e consumidores, pode-se retomar um ciclo de crescimento mais rápido a partir do final deste ano. “Só poderemos crescer como de 2004 a 2010 acelerando a produtividade, o que exige trabalhadores mais bem preparados e equipados, portanto muito investimento em educação, máquinas, equipamentos e tecnologia”, explicou Amorim, lembrando que a “mãe” das oportunidades são os problemas.

A indústria também se aproveita desse cenário de mudança, devido ao novo líder do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior – MDIC. Armando Monteiro Neto, que presidiu entre 2002 e 2010 a Confederação Nacional da Indústria – CNI, o Senai e o Sesi, se diz disposto a manter parceria com todos os segmentos do setor produtivo e elenca como seu principal desafio a promoção da competitividade, o que significa reduzir custos sistêmicos e elevar a produtividade, a fim de proporcionar crescimento do País nos próximos anos. “Nesse contexto, a indústria tem papel central, pois crescer pela indústria é sempre o melhor caminho, porque há forte associação com a criação de empregos de qualidade, a disseminação do conhecimento, o desenvolvimento tecnológico e a geração de divisas”, afirmou Neto.

Para promover a competitividade, o novo ministro definiu cinco medidas: reformas microeconômicas, que envolvem melhorias no ambiente tributário e regulatório e simplificação dos processos; política de comércio exterior mais “ativa”, que amplie os acordos comerciais com parceiros estratégicos e permita maior inserção nas cadeias globais de valor; incentivo ao investimento e à renovação do parque fabril, de modo a reduzir a idade média das máquinas e equipamentos em operação no Brasil (que hoje é de 17 anos), e a adoção de modelo de financiamento de bancos públicos que viabilize crescentemente acesso dos recursos para pequenas e médias empresas; estimulo à inovação; e aperfeiçoamento do sistema que irá gerir a “agenda” da competitividade.

Por ser um nome ligado à indústria, a escolha de Neto à frente do MDIC é vista como positiva, por exemplo, pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica – Abinee e por especialistas, como Pedro Chadarevian, prof. dr. de economia da Unifesp e da pós-graduação de políticas públicas da UFABC. Para ele, o ano começa com outras duas boas notícias para a indústria. Uma é a maturação dos investimentos feitos nos últimos anos para a qualificação da mão de obra devido à expansão do acesso ao dos investimentos feitos nos últimos anos para a qualificação da mão de obra devido à expansão do acesso ao ensino superior. “Nos últimos dez anos mais que dobramos a proporção de pessoal ocupado na indústria com nível universitário, o que deve refletir mais cedo ou mais tarde em maior produtividade”, disse Chadarevian.

Outra previsão é a desvalorização do câmbio, encarecendo as importações. “Nesse sentido, deve ocorrer recuperação do segmento de máquinas e equipamentos, inclusive pela necessidade de mecanização generalizada, especialmente nos setores mais pressionados por salários, regulamentações trabalhistas e rentabilidade, como é o caso, entre outros, do agronegócio”, contou o economista.

Quanto ao câmbio, entidades ligadas à indústria, a exemplo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – Abimaq e Abinee e de economistas, como José Luís Oreiro, prof. dr. da UFRJ, defendem que tem de ser no mínimo R$ 3,00 para começar a ser bom para a indústria nacional. Victor Gomes, doutor em economia, docente da UNB e pesquisador associado da Rede de Economia Aplicada, disse que esse cenário já está ocorrendo. “No caso, o fortalecimento do dólar deve fortalecer as exportações brasileiras”, explicou. “Com essa ótica, medidas que facilitem negócios internacionais são bem-vindas. Se o governo for ‘claro’ em suas ações, empresas brasileiras podem aproveitar e expandir suas operações no mercado doméstico ou internacional. Os desafios são enormes, mas grandes dificuldades trazem boas oportunidades.”

Os setores de máquinas e equipamentos e de infraestrutura deverão ser os primeiros a apresentar melhoras a partir de 2015, conforme a confiança recuperada elevar os investimentos em projetos, prevê Alberto Suen, prof. dr. de finanças da UFABC e engenheiro de produção. Assim como para esses dois setores, também para a cadeia do petróleo estão programados investimentos, seja devido aos últimos leilões de concessão e/ou aos desembolsos necessários à viabilização da exploração do pré-sal, afirmou a economista Roberta Possamai, pesquisadora e mestranda da FGV. Outra aposta de boas perspectivas envolve a indústria alimentícia, como indicou Ana Elisa Périco, docente de finanças da Unesp, pesquisadora das infraestruturas produtivas e doutora em engenharia de produção. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação, a previsão do setor para 2015 é de crescimento de 2,5% no volume de produção industrial, 3% de vendas e exportações de US$ 40 bilhões.

A Abinee projeta crescimento nominal e investimentos em reais de cerca de 2% em relação a 2014, e a indústria de transformação do plástico deverá ter aumento de 1% na produção física, 2% no índice de emprego e 2% no consumo aparente dos transformados plásticos (em toneladas), informou a Associação Brasileira da Indústria do Plástico.

Para completar as perspectivas para os setores, Antônio Márcio Buainain, prof. dr. de economia da Unicamp, crê em recuperação, no segundo semestre, da construção civil e transportes. Já Elton Eustáquio Casagrande, doutor em economia e docente da Unesp, aposta que a cadeia do agronegócio será outro destaque em 2015.

A energia é mais um tema comentado pelos especialistas que deve pautar ainda mais as discussões neste ano. O professor da UNB alertou que medidas sustentáveis e competitivas para o setor de energia são cruciais para o avanço industrial e para atrair investimentos.

Outra boa notícia para a indústria em 2015, de acordo com Buainain e Spinola, é que o crescimento pode se dar também pela ocupação de capacidade ociosa, porque em 2014 elevou-se a ociosidade, podendo, neste ano, ser recolocadas máquinas em operação. “Deve-se lembrar que Copa do Mundo, com forte elevação de preços no período, e eleições afetam as decisões de gasto, fatores que não ocorrerão em 2015”, opinou o pesquisador do NEIT. “A Copa também afetou a produção industrial pelo aumento dos feriados, que também gerou retração do consumo.”

No curto prazo, além de o Banco Central deixar a taxa de câmbio se acomodar em um patamar mais alto e o governo recuperar a confiança do setor produtivo, outra medida é fundamental: apresentação de programa de investimentos em infraestrutura crível, reduzindo parte do chamado custo Brasil, citou Roberta.

Amorim completa a lista de melhorias para a indústria nacional, sugerindo reforma das leis trabalhistas.

Apesar das novas equipes ministeriais, boas aspirações e algumas ações correntes que já entusiasmam, recuperar o crescimento sustentado já em 2015 será pouco provável na visão dos economistas entrevistados e associações ligadas à indústria. Em análise publicada no Valor Econômico de 1º de dezembro, Silvia Matos e Vinícius Botelho, pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia – IBRE da FGV, comentam que este deve ser um ano de ajustes, mas, reestabelecidas as condições de política econômica para gerar crescimento, a partir de 2016 o País voltará a apresentar taxas próximas do potencial estimado. Segundo a CNI, a indústria terá expansão de 1% em 2015.

Projeções para o macroBrasil

A reportagem de NEI conversou com economistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília para descobrir as palavras de ordem para o Brasil. O resultado é o conjunto de mandamentos: retomada da confiança, ajuste, controle de gastos e da inflação, competitividade, internacionalização, equilíbrio fiscal, fim da impunidade, austeridade fiscal, menor intervenção governamental, adequação das empresas para o retorno do crescimento econômico, emprego, inovação, responsabilidade social e distribuição de renda.

Felizmente, a nova equipe econômica já sinalizou que pretende trazer de volta a confiança perdida e realizar outros ajustes, que devem ser feitos para corrigir uma série de desequilíbrios que a economia brasileira acumulou. “Um dos motivos de Joaquim Levy no Ministério da Fazenda, um economista ortodoxo, é resgatar a credibilidade da equipe econômica do governo no segundo mandato”, opinou Marcel Grillo Balassiano, da área de Economia Aplicada do IBRE. Como medidas iniciais, Levy anunciou que o governo vai buscar superávit primário de 1,2% do PIB em 2015 e de 2% em 2016 e 2017.

Segundo Felippe Cauê Serigati, professor de economia da FGV, será necessário aumentar a taxa de juros e encarecer o crédito para acomodar a inflação; do lado das contas públicas, será preciso cortar algumas despesas e elevar impostos; por fim, para reduzir o déficit nas contas externas, o Banco Central terá de permitir que a taxa de câmbio se desvalorize, embora isso pressione ainda mais a inflação.

De acordo com a CNI, a economia crescerá 1% em 2015. Por trás disso, comentou Serigati, está a desaceleração do consumo interno e a queda dos preços das commodities que o Brasil exporta, bem como a menor capacidade do governo em repassar recursos para os bancos públicos. “Apesar disso, o crescimento de 2015 deve ser melhor que o de 2014 por causa de alguns investimentos que já foram contratados”, revelou. Já a inflação, possivelmente ficará em 6,5%, com novo aumento da taxa Selic para tentar diminuir a inflação. Lembrou Serigati que o ideal é a inflação ser acomodada em patamar próximo da meta, de 4,5% a.a.

Quanto aos investimentos no Brasil, economistas acreditam em ligeiro aumento devido, principalmente, aos resultados das últimas concessões de aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, bem como à exploração do pré-sal. No tempo certo deve-se mobilizar o capital privado, que tem interesse em investir. Reforçam ainda que um tema crucial para a retomada do crescimento é a punição e o combate à corrupção.

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Responsabilidades do empresário industrial em 2015 

Em cenário de dificuldades, se o empresariado apenas se defender aumentando o nível de ociosidade e elevando margens e demissões, há o risco de se “entrar em uma espiral” de crise e desconfiança muito perigosa aos sistemas econômicos, alertou Spinola.

É preciso mudar o foco das reivindicações e negociações com o governo, que tem se concentrado em “pequenos favores” que não resolvem o problema, apenas produzem alívio imediato, sugeriu Buainain.

Para os especialistas, a princípio a missão é manter a empresa “saudável”. Se os ajustes prometidos para este ano forem feitos, a indústria deverá começar a colher os frutos nos próximos anos. À medida que a confiança aumentar, é hora de acreditar, investir, buscar produtividade com inovação para elevar a competitividade e aproveitar as oportunidades para o novo ciclo de crescimento que deve ter início em 2016. Para completar, há de acreditar mais nos trabalhadores e incentivá-los e desenvolver inteligência estratégica para assegurar empregos. Faz parte de todo o processo cobrar regras claras, sustentáveis e competitivas de regulação econômica e atuar em parceria com o setor público.

Mario Winterstein, diretor de desenvolvimento de negócios da The Association For Manufacturing Technology (EUA) – AMT, recomenda que o Brasil siga os mesmos passos que permitiram aos EUA tornar-se o país com um dos custos de manufatura mais baixos, inclusive em relação à China, para bens duráveis a serem “consumidos” na América do Norte. Para ele, os passos incluem: baixar o custo de energia, inovar, utilizar máquinas avançadas, criar novos materiais e ferramentas, automatizar a usinagem e a montagem, definir ganho na produtividade e treinar a mão de obra. “Tudo isso deve ser acompanhado de bom senso, deixando o mercado achar seu caminho, sem interferência governamental e protecionismo. Das empresas de manufatura, somente as competitivas por mérito próprio sobrevivem e crescem.”

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